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Desenvolvimento Pessoal Ancestral

A Força da Ancestralidade: Por Que Devemos Cultuar e Respeitar Nossos Ancestrais?

Templo das Almas · Blog · Tempo de leitura: 6 min

A ancestralidade começa quando entendemos uma coisa simples: ninguém chega até aqui sozinho. E se você está se perguntando por onde começar essa caminhada, a resposta não está num ritual — está numa pergunta que toda pessoa deveria se fazer pelo menos uma vez na vida: quem tornou possível que eu chegasse até aqui?

Há uma imagem que volta à minha memória com frequência. Sempre que penso em ancestralidade, não lembro primeiro de um terreiro, de uma gira ou de um ritual. Lembro de três pessoas: meu avô paterno, Pai Joaquim e Doutor José. Os três sentados lado a lado, olhando para mim e sorrindo. Naquele instante, entendi uma coisa que demoraria anos para conseguir colocar em palavras: eu nunca caminhei sozinho.

Ninguém Chega Até Aqui Sozinho

A resposta pra "quem tornou isso possível" nunca será apenas nossos pais. Antes deles vieram nossos avós. Antes dos nossos avós, outras pessoas cujos nomes talvez nunca conheceremos — pessoas que trabalharam, migraram, resistiram, perderam, recomeçaram e enfrentaram dificuldades que hoje sequer conseguimos imaginar. Nenhuma vida começa do zero. Todos nós somos continuidade de muitas histórias. É justamente isso que chamamos de ancestralidade.

Cultuar Ancestrais Não é Viver no Passado

Talvez esse seja o primeiro equívoco quando falamos sobre ancestralidade. Muita gente acredita que cultuar os ancestrais significa apenas conhecer uma árvore genealógica, acender uma vela ou aprender uma reza específica. Tudo isso pode fazer parte do caminho, mas nada disso explica, por si só, o que significa honrar quem veio antes de nós.

Ancestralidade não começa no altar. Ela começa quando percebemos que nossa vida não nasceu no dia em que respiramos pela primeira vez. Cada escolha que fazemos carrega histórias que vieram antes da nossa — de quem sobreviveu, trabalhou, sonhou, perdeu, amou, resistiu e abriu caminhos para que hoje pudéssemos existir.

Vivemos numa época que valoriza demais o indivíduo. A ancestralidade nos lembra da comunidade. Ela quebra a ilusão de que conquistamos tudo sozinhos — somos resultado de encontros, de afetos, de dores e de escolhas feitas muito antes de nascermos. Cultuar a ancestralidade é, antes de tudo, um exercício de humildade.

Ancestralidade Também é Responsabilidade

Foi a espiritualidade que me ensinou a enxergar isso. Mas ela também me mostrou que respeitar a ancestralidade exige muito mais do que emoção — exige responsabilidade.

Hoje entendo que não faz sentido dizer que honro Pretos-Velhos sem conhecer a história da escravidão e sem reconhecer que seus impactos continuam presentes na sociedade brasileira. Não faz sentido dizer que caminho com Caboclos e permanecer indiferente às violências sofridas pelos povos indígenas, à destruição de seus territórios e ao apagamento de suas culturas.

Também aprendi que falar sobre Pombagira vai muito além de conhecer seus pontos ou sua falange. Caminhar com essa força me fez olhar com mais atenção para as mulheres, escutar suas histórias e compreender que ainda existe um longo caminho na luta por respeito, autonomia e dignidade.

Como homem trans, essa caminhada também mudou profundamente minha forma de compreender o acolhimento. Não faz sentido falar de amor ao próximo apenas dentro da gira enquanto pessoas LGBTQIAPN+ continuam sendo expulsas de casa, marginalizadas, violentadas e privadas do direito mais básico: existir com dignidade. A espiritualidade nunca me permitiu separar uma coisa da outra — o cuidado aprendido dentro do terreiro precisa continuar quando atravessamos seu portão.

Foi assim que descobri que cultuar a ancestralidade também é um ato de responsabilidade com o presente. Porque os ancestrais não nos deixaram apenas rezas. Deixaram perguntas: o que estamos fazendo com o mundo que recebemos? Que sociedade estamos ajudando a construir? Que legado queremos deixar para aqueles que virão depois de nós?

Por Onde Começar Essa Caminhada

Minha resposta talvez decepcione quem espera uma lista de firmezas ou de oferendas. Comece pela sua própria história.

Converse com seus avós enquanto ainda é possível. Pergunte de onde veio sua família. Escute as histórias que nunca foram escritas. Abra os álbuns antigos. Pergunte pelos nomes que quase ninguém mais lembra.

Leia autores negros e autores indígenas. Conheça a história do lugar onde você nasceu. Visite um terreiro com respeito, e aprenda antes de opinar. Entenda que a ancestralidade também mora nas receitas de família, nas músicas, nas ervas, nos silêncios, nas mãos que cuidaram de você quando era criança e nas pessoas que abriram mão de muito para que hoje você pudesse caminhar. Antes de aprender um ritual, aprenda a ouvir.

Que Ancestral Você Está se Tornando?

A espiritualidade me ensinou que honrar os ancestrais não é viver olhando para trás. É caminhar para a frente sem esquecer quem tornou esse caminho possível. Um dia, alguém vai olhar pra trás e nos chamar de ancestral — talvez um filho, um neto, ou alguém que nunca vamos conhecer. A pergunta que fica é: que tipo de ancestral estamos nos tornando hoje?

Hoje, quando fecho os olhos, aquela imagem continua voltando. Meu avô. Pai Joaquim. Doutor José. Os três sorrindo — não como quem espera ser lembrado, mas como quem me lembra, todos os dias, da responsabilidade de continuar essa caminhada.

Porque ninguém chega até aqui sozinho. E ninguém deveria caminhar esquecendo quem veio antes.

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