A Força da Ancestralidade: Por Que Devemos Cultuar e Respeitar Nossos Ancestrais?
A ancestralidade começa quando entendemos uma coisa simples: ninguém chega até aqui sozinho. E se você está se perguntando por onde começar essa caminhada, a resposta não está num ritual está numa pergunta que toda pessoa deveria se fazer pelo menos uma vez na vida: quem tornou possível que eu chegasse até aqui?
Há uma imagem que volta à minha memória com frequência. Sempre que penso em ancestralidade, não lembro primeiro de um terreiro, de uma gira ou de um ritual. Lembro de um momento que tive uma visão de três pessoas primordiais para a minha jornada espiritual: meu avô paterno, o preto velho que me acompanha: vô Joaquim e Doutor José. Os três sentados lado a lado, olhando para mim e sorrindo. Naquele instante, entendi uma coisa que demoraria anos para conseguir colocar em palavras: eu nunca caminhei sozinho.
Ninguém Chega Até Aqui Sozinho
A resposta para quem tornou isso possível nunca será apenas os nossos pais. Antes deles vieram nossos avós. Antes dos avós, outras pessoas cujos rostos talvez nunca conheceremos, gente que trabalhou, migrou, resistiu, perdeu, recomeçou e enfrentou dificuldades que hoje sequer conseguimos imaginar.
Nenhuma vida começa do zero. Todos nós somos a continuidade de muitas histórias. É justamente a esse tecido invisível que chamamos de ancestralidade.
Cultuar Ancestrais Não é Viver no Passado
Talvez esse seja o primeiro equívoco quando o assunto vem à tona. Muita gente acredita que cultuar os ancestrais significa apenas conhecer uma árvore genealógica, acender uma vela ou decorar uma reza específica. Tudo isso pode fazer parte do caminho, mas nada disso explica, por si só, o significado de honrar quem veio antes.
A ancestralidade não começa no congá; ela começa quando percebemos que a nossa vida não nasceu no dia em que respiramos pela primeira vez. Cada escolha que fazemos carrega o eco de quem sobreviveu, sonhou, amou e abriu porteiras para que pudéssemos existir. Vivemos em uma época que supervaloriza o individualismo, mas a ancestralidade nos devolve à comunidade. Ela quebra a ilusão de que conquistamos tudo sozinhos, lembrando-nos de que somos o resultado de encontros, dores e afetos gerados muito antes de nascermos.
Ancestralidade Também é Responsabilidade
Foi a espiritualidade que me ensinou a enxergar isso, mas ela também me cobrou que respeitar a ancestralidade exige muito mais do que emoção, exige ação.
Hoje, entendo que não faz o menor sentido dizer que honro Pretos-Velhos sem conhecer a história da escravidão e sem reconhecer que os seus impactos estruturais continuam ferindo a sociedade brasileira. Não faz sentido dizer que caminho com Caboclos e permanecer indiferente às violências sofridas pelos povos originários, à destruição de seus territórios e ao apagamento sistemático de suas culturas.
Essa mesma responsabilidade se estende de forma visceral quando olhamos para o Sagrado Feminino e para a força das nossas Pombagiras.
Por ser um homem trans, a minha conexão com as entidades femininas foi, no início, uma estrada esburacada. A ideia de performar o feminino ativava dores cravadas no meu corpo desde o nascimento. Mas a majestade de Dona Rosa Caveira desconstruiu todas as minhas defesas. Ela me ensinou que a performance de gênero é uma ilusão e que, no fim, somos todos osso e pó. Permitir que o Sagrado Feminino atuasse em mim foi uma aula sobre vulnerabilidade, desmontando qualquer armadura que o mundo exigia de mim.
Honrar essas ancestrais não é apenas acender uma vela; é ter a coragem de confrontar o machismo e combater a violência contra a mulher na vida real.
Essa mesma coerência se aplica quando falamos de acolhimento. Como homem trans, caminhar junto da espiritualidade mudou profundamente a minha forma de enxergar o outro.
Não faz o menor sentido falar de amor ao próximo dentro do terreiro enquanto pessoas LGBTQIAPN+ continuam sendo expulsas de casa, marginalizadas e privadas do direito mais básico: existir com dignidade e segurança.
O cuidado aprendido dentro do terreiro precisa continuar quando atravessamos o portão para a rua. A espiritualidade nunca me permitiu separar uma coisa da outra. Cultuar a ancestralidade é assumir uma responsabilidade inegociável com o presente. Os ancestrais não nos deixaram apenas rezas; deixaram perguntas urgentes: o que estamos fazendo com o mundo que recebemos e que legado estamos construindo para quem virá depois de nós?
Por Onde Começar Essa Caminhada
Minha resposta talvez decepcione quem espera uma lista pronta de firmezas ou de oferendas mirabolantes. Comece pela sua própria história.
Converse com seus mais velhos enquanto ainda há tempo. Pergunte de onde veio sua família, escute as histórias que nunca foram escritas em livros, abra os álbuns de fotografias antigos. Leia autores negros e indígenas. Conheça a história do chão onde você nasceu.
Visite um terreiro com respeito e aprenda a ouvir antes de emitir qualquer opinião. Entenda que a ancestralidade também mora nas receitas guardadas em cadernos de capa amarelada, nas músicas, nas ervas, nos silêncios e nas mãos que cuidaram de você quando criança.
Que Ancestral Você Está se Tornando?
A espiritualidade nos ensina que honrar quem veio antes não é viver olhando para trás com nostalgia, mas caminhar para a frente sem esquecer as mãos que nos trouxeram até aqui.
Um dia, alguém vai olhar para trás e nos chamar de ancestral, seja um filho, um neto ou alguém que jamais conheceremos. A pergunta que fica para todos nós é uma só: que tipo de ancestral estamos nos tornando hoje?
Quando fecho os olhos, aquela imagem continua voltando: meu avô, Vô Joaquim e Doutor José, sentados lado a lado. Eles sorriem não como quem exige culto, mas como quem nos lembra, todos os dias, da responsabilidade de continuar a travessia com dignidade.
Porque ninguém chega até aqui sozinho. E ninguém deveria caminhar esquecendo quem abriu o caminho.