Desmistificando Exu e Pombagira. O que ninguém sabe sobre eles?
Se você cresceu no Brasil, é quase certo que já ouviu alguma história assustadora ou um julgamento precipitado sobre Exu e Pombogira. Seja em boatos, histórias ou frases prontas ditas sem conhecimento, a Esquerda na Umbanda sempre foi um dos alvos preferidos do preconceito, seja ele religioso, racial ou sexista.
Durante séculos, nos ensinaram a temer o que não compreendemos. No imaginário popular, alimentado por visões eurocêntricas e medos herdados, os nomes Exu e Pombogira costumam vir acompanhados de estigmas: promiscuidade, vingança ou a associação direta ao "Diabo" cristão. Mas o que acontece quando a gente decide tirar essa névoa de preconceito e olhar para a espiritualidade sem os filtros do medo?
A verdade é que a maior parte do que se fala por aí não passa de mito. Tudo fruto dessa tentativa insistente de enquadrar as religiões de matriz africana e os cultos de raízes brasileiras em conceitos rígidos que nunca fizeram parte delas.
Então, vamos direto ao ponto? Quero te convidar a desmistificar essas inverdades e entender quem realmente são essas forças que caminham ao nosso lado: espíritos de força, estrutura, cura e profunda sabedoria.
“Mas afinal, eles fazem o mal? Só realizam trabalhos negativos?”
Essa é, sem dúvidas, a pergunta que mais escuto. E a resposta é direta: não.
Exu e Pombogira não trabalham sob a lógica humana de "bem" ou "mal", mas sim com a amoralidade. Isso não significa que são cruéis, sádicos ou afins, mas sim que cumprem o que é necessário para que o Orí de cada pessoa cumpra a sua predestinação, sem o filtro dos nossos julgamentos morais.
Pense neles como as forças da própria natureza: o fogo te queima se você colocar a mão sem cuidado, mas, quando bem manipulado, ele molda até o metal mais duro. O fogo não é bom nem mau; ele é apenas o que é e segue a sua natureza de ser fogo.
E vale lembrar aqui que isso não tira o livre-arbítrio de ninguém. Não dá para culpar a Esquerda pelas decisões ruins que nós mesmos tomamos, e muito menos pelas consequências delas. Se a vida daquele que fez um feitiço para atrapalhar outra pessoa deu errado após essa ritualística, não significa que Exu e Pombogira puniram, apenas que o desequilíbrio existente na vida da própria pessoa foi explanado e o que desejou para o outro não estava de acordo com o que aquela pessoa pratica/ tem em seus caminhos.
Existe um orin Yorubá lindo que diz: “Exu começa uma briga e se afasta para observar”. Isso resume perfeitamente o papel dessas entidades: provocar situações nas nossas vidas, que só acontecem porque permitimos, para observar como nos portamos e o que faremos para reorganizar o nosso próprio caos.
“E essa história de que são espíritos pecadores, viciados e promíscuos?”
Aqui a gente esbarra em mais uma tentativa frustrada de encaixar a Esquerda em um conceito totalmente católico/ cristão: o pecado.
O julgamento moralista não cabe a eles. Inclusive, arrisco dizer que Exu e Pombogira são justamente as entidades que melhor entendem os desejos, as dores e as reais motivações humanas (e daí vem o conhecimento popular de que Exu arranca máscaras). Mas engana-se quem pensa que, por não usarem a régua do "pecado", eles aceitam qualquer coisa. Exu e Pombogira são extremamente justos. Eles cobram a excelência e o verdadeiro conhecimento de si proprio de quem os cultua.
E de onde vem essa fama de "vícios" e "promiscuidade"? Principalmente do fato de beberem, fumarem e falarem abertamente sobre sexualidade e tabus sociais. Mas vamos olhar pela ótica da magia prática: bebida e fumo, quando manipulados com fundamento por uma entidade, são mecanismos de limpeza e propulsão. Eles servem para cortar demandas pesadas, descarregar energias densas e movimentar mistérios que só a Esquerda domina. Não há vício ali, há trabalho magnético.
Já o falar abertamente sobre temas polêmicos existe justamente para quebrar os nossos preconceitos, e não para fomentá-los. Pombogira não julga as paixões ou os impulsos humanos; ela trabalha a força vital do indivíduo para que ele não seja dominado nem anulado. Quando ela intervém, ela rompe ilusões, impõe limites e resgata a postura daquela pessoa perante a vida, pouco se importando se isso vai chocar as convenções sociais ou as expectativas alheias.
A maestria que vem da escuridão
A trajetória terrena desses espíritos lhes trouxe algo fundamental para a missão que exercem hoje: o conhecimento profundo das sombras, da mente humana, das paixões e das estratégias do astral denso. Eles não atuam na Esquerda por "punição", "falta de luz" ou por “serem menos evoluídos”, mas sim porque têm a “casca”, a densidade e o conhecimento profundo necessário para lidar com a realidade nua e crua.
Na mecânica espiritual, o que o senso comum chama de "trabalho negativo" é, na verdade, a manipulação precisa de energias pesadas para cortar uma demanda, conter uma força descontrolada ou neutralizar uma ameaça. Pense em um cirurgião: ele precisa cortar a carne e manipular tecidos brutais para salvar um corpo. Os Guardiões fazem exatamente isso no astral: usa a força bruta, a densidade e a astúcia para estancar a desordem. Não há crueldade ou sadismo nisso, há eficiência estratégica.
Conhecer a escuridão não faz de Exu e Pombogira espíritos maus pois dentro do culto a estas forças esse conceito não existe. No fim das contas, desmistificar Exu e Pombogira não é sobre tentar "limpar a imagem" deles para que sejam aceitos por réguas e morais que nunca lhes pertenceram. É sobre ter a coragem de enxergar a espiritualidade sem as lentes do medo, do preconceito e da ignorância.
A Esquerda não existe para afagar egos, tampouco para punir almas. Exu e Pombogira são o movimento, a estrutura, a vitalidade. Eles são a força de elite que entra onde mais ninguém consegue ir, não porque pertencem às sombras, mas porque têm a firmeza e a luz necessárias para não se perderem nelas.
Da próxima vez que você ouvir um julgamento supérfluo sobre os Guardiões, lembre-se: o medo costuma ser apenas o nome que a gente dá para o que ainda não se dispôs a compreender. Entender a Esquerda é um caminho sem volta para quem busca autoconhecimento, respeito às nossas raízes e uma visão verdadeiramente livre da espiritualidade. A pergunta que fica é: você está pronto para descer da superfície e olhar para além do mito?